História

História

Designada na Idade Média como Santa Cruz de Riba Leça ou Santa Cruz da Maia, a atual freguesia de Santa Cruz do Bispo, pertencente ao concelho de Matosinhos e ao distrito do Porto, possui uma antiquíssima História, que se materializa também num relevante Património, material e imaterial.

Pertencente às medievais Terras da Maia, e ao antiquíssimo Julgado da Maia, a partir de 1835 passou a integrar o concelho de Bouças que, em 1909, se passou a designar como Matosinhos. Apesar destas “mudanças” concelhias, nunca deixou, no entanto, de se constituir como paróquia (e depois freguesia) própria e sem relevantes alterações, ao longo dos séculos, na sua dimensão e composição de lugares. Por outro lado, e pese embora  o alicerçar da identidade e da “autonomia” desta comunidade se enraizar fundamentalmente na Idade Média, não se pode deixar de chamar a atenção para o facto da fixação humana neste território ser muito mais antiga. Com efeito, e tendo em consideração um conjunto de achados arqueológicos que remontam à Pré-história Recente, poderemos fazer aqui recuar o início do povoamento ao Neolítico, há mais de cinco mil anos. Vestígios da ocupação romana sublinham, para épocas mais próximas, desde há dois mil anos, a atratividade que estas terras continuaram a possuir para os nossos antepassados.

Cruzado e banhado pelo rio Leça, cujas águas estão na base da notável fertilidade destes solos, o território de Santa Cruz do Bispo foi, sintomaticamente, designado na Idade Média por Santa Cruz de Riba Leça. A utilização do orago “Santa Cruz” é, de resto, significativa, já que por regra tal evocação é coincidente com algumas das mais antigas paróquias do país.

De facto, esta localidade aparece-nos já referenciada em documentação anterior à própria origem da nacionalidade, como é o caso do testamento de Soeiro Mendes de 1098, ou contemporânea da fundação de Portugal, como é o caso da “doação da ermida de Santa Cruz da Maia , pela prioresa de S. Cristóvão de Rio Tinto, aos Irmãos ermitões dela”, em 1140. Ou seja, no século XII, e para lá das comunidades rurais que se tinham estabelecido ao longo do vale, também uma comunidade de eremitas aqui se havia estabelecido, contribuindo para aquela que será também uma das marcas identitárias de Santa Cruz: a sua vocação religiosa.

Na transição desse século XII para o XIII emerge neste território uma personagem que se manterá, até hoje, como um dos grandes símbolos de Santa Cruz: a Rainha Beata Dona Mafalda, filha do rei Sancho I e neta de Afonso Henriques. A presença desta poderosa fidalga jamais será esquecida, preservando-se a sua memória através da atribuição do seu nome a um palácio local renascentista do século XVI, ou, mais recentemente, numa singela escultura no interior do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, ou na toponímia da freguesia, nomeadamente a numa moderna avenida estruturante que serve o centro da freguesia.

A Mafalda se ficará a dever o alicerçar de uma importante propriedade rural que possuiu nas margens do Leça e que, documentada ao longo de vários anos, foi ampliando por aquisições e doações. É esta extensa e fértil  propriedade que acabou por estar na base da definitiva designação desta terra. Com efeito, Mafalda doou esta relevante quinta aos bispos do Porto cuja presença sistemática no local, nomeadamente a partir do século XVI, fará com que a freguesia passe a ser conhecida, já não como Santa Cruz de Riba Leça, mas sim como Santa Cruz… do Bispo.

Entretanto, e pelo menos desde o século XIII, como fica evidente nas Inquirições de Afonso III de 1258, todo este território se encontrava já organizado como uma comunidade, constituída por vários lugares e aldeias, mas sob a “jurisdição” da mesma igreja: a de Santa Cruz. De resto, todos os “lugares” referidos nestas Inquirições são, ainda hoje, topónimos e sítios bem identificados da freguesia.

Também dessa época importa referir a construção, sobre uma garganta apertada do Leça, de uma imponente ponte – a do Carro – que terá possuído enorme importância durante séculos em toda a região, por ser a única que, neste troço final do rio, permitia uma passagem em segurança, nomeadamente para quem pretendia passar com carros puxados por animais. Estruturante na rede viária medieval e posterior, a ponte do Carro, utilizada também por peregrinos que norteavam para Santiago de Compostela, constituiu-se também num dos ícones identitários desta terra.

Entretanto, e em época pós-medieval, mais precisamente na segunda metade do século XVI, a já aqui referida extensa e fértil quinta de Santa Cruz foi adaptada também, pelo renascentista bispo do Porto D. Rodrigo Pinheiro, a uma estância de repouso e lazer dos bispos e de seus convidados, nomeadamente artistas que, convidados pelos prelados que assumiam assim também, dentro do espírito renascentista da época, um papel de mecenas das artes. Santa Cruz, agora do Bispo, assumia características de polo cultural e humanista. Dessa época e dos séculos seguintes existem diversos testemunhos, incluindo de poetas espanhóis, que a descrevem como a mais bela quinta do seu tipo em toda a Península Ibérica. De facto, e para lá das belezas naturais asseguradas pelo rio Leça e pelas suas seculares matas de carvalhos e castanheiros, também Rodrigo Pinheiro e os bispos que se lhe sucederam foram enriquecendo a propriedade com múltiplas e sumptuosas obras: um palácio para residência, jardins, esculturas, aquedutos, fontes, lagos e fontanários…  Particularmente relevantes foram, também, as intervenções asseguradas na primeira metade do século XVIII e que ficam associadas ao génio arquitetónico e artístico do italiano Nicolau Nasoni. Até hoje, a entrada da quinta aberta nessa altura passou a figurar como um dos elementos mais identitários e diferenciadores de Santa Cruz do Bispo. Para tal concorreu, também, a circunstância de, mesmo ao lado e também nessa época, mais precisamente em 1756, a igreja paroquial, o mais importante centro congregador da comunidade, ter sido significativamente alterada e ampliada, resultando em grande parte no imóvel que, até hoje, domina o centro da freguesia.

Apesar de localizada nas proximidades de Leça da Palmeira, Matosinhos e Perafita, e por isso do Oceano, a verdade é que Santa Cruz do Bispo se diferencia das freguesias vizinhas tão marcadas ao longo dos séculos pelas atividades agro-marítimas dos seus habitantes. Também nesta dimensão há que sublinhar uma identidade muito própria de Santa Cruz, que sempre se caracterizou pela sua atividade dominantemente agrária – praticamente até à atualidade. Uma prática reforçada a partir do século XVIII pelo cultivo do milho e da criação de gado vacum, mas também por uma relevante atividade moageira, assegurada por vários moinhos do Leça que, no seu conjunto, faziam mover várias dezenas de mós.

A especificidade e identidade agrícola da freguesia – a única no concelho que, sintomaticamente, possuía e continua a possuir uma “Casa do Povo” – emprestou também a Santa Cruz especificidades únicas no quadro das tradições da região.  Algo que ainda hoje é percetível, não só nas tradições etnográficas, mas também nalgumas curiosas devoções e romarias, de que o exemplo mais paradigmático são as “Festas de S. Brás”, no primeiro domingo de fevereiro (bem longe do ciclo das festividades populares que irrompem apenas com a entrada do verão, na generalidade do país). Tal festividade anda, também, associada a uma antiquíssima escultura antropomórfica em pedra – o “Homem da Maça” – que nos remete para ancestrais lendas e práticas do homem do “pagus” (do “campo”, e daí paganismo) que referem a importância do cultivo do linho, mas também de gestos propiciatórios de fertilidade associados a elementos vegetais e agrícolas.

Nas últimas décadas Santa Cruz do Bispo conheceu três profundas alterações que, no entanto, vieram também reforçar especificidades próprias da freguesia. Por um lado, e desde 1911, a Quinta dos Bispos foi sucessivamente transformada em Colónia Penal Agrária e em estabelecimento prisional masculino e, muito mais recentemente, também feminino. Tais equipamentos trouxeram para a freguesia um conjunto considerável de funcionários, incluindo guardas prisionais, que deram origem a um bairro próprio e à dinamização da pequena economia local em torno do “fenómeno penal”.

Por outro lado o aparecimento na segunda metade do século XX, e o seu significativo crescimento já no século XXI, do vizinho aeroporto de Pedras Rubras/Francisco Sá carneiro, veio condicionar de um modo muito significativo a capacidade de construção em Santa Cruz do Bispo, contribuindo para um desenvolvimento urbano em tudo diferente das restantes freguesias que a cercam e que, desde a década de 70 do século passado, cresceram não só de um modo desordenado, num primeiro momento, e muito em “altura”, contrastando com Santa Cruz do Bispo onde só muito excecionalmente a cércea ultrapassa os três pisos acima do solo, predominando as vivendas e as antigas casas dos ancestrais núcleos rurais.

Mais recentemente, também a fixação na freguesia da Plataforma Logística do Porto de Leixões, veio trazer grandes desafios para uma comunidade que, com fortes laços identitários e de vizinhança, assente numa história muito própria e identitária. E assim, se as freguesias vizinhas possuem já, todas elas, o estatuto de cidade ou de vila, para muitos santacrucenses tal facto faz com que, com orgulho, reclamem ser moradores da “aldeia mais próxima do Porto!”

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